sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Desliguem o Canal Off




                         
Talvez você já tenha ouvido falar do Canal Off. Talvez não. Talvez curta o que se passa no Canal Off. Talvez não. Mas muito provavelmente, se você conhece ou vir a conhecer o Canal Off e curtir o que se passa na tela dele, não vai curtir o Canal Off por si só. Por quê? Já explico. Antes, porém, precisamos falar de bullying virtual.

Para evitar interpretações ou expectativas equivocadas, já digo que não vou tocar em qualquer tipo de demonstração de preconceito e também não vou problematizar haters (aquelas pessoas que ficam odiando e ofendendo através de comentários anônimos em notícias do G1 ou até mesmo no Facebook com a identidade para quem quiser ver por achar que a internet dá aval para falar o que bem ((não)) entender). Neste caso, o hater provavelmente sou eu. Só que eu admirando/odeio de pertinho e caladinho.

Bullying virtual aqui eu falo de redes sociais. Sobretudo Instagram e por vezes Facebook, já que a maioria das pessoas replica suas publicações da primeira na segunda. E o bullying é praticado por todos e a única vítima que eles estão agredindo sou eu mesmo. Todo mundo está muito feliz e eu trabalhando. Todo mundo está viajando e eu deitado no sofá. Todo mundo está indo à praia com um short descolado e eu indo à padaria com um short furado. Todo mundo vendo neve na Europa e eu tentando entender o termostato da geladeira, que nunca sei se o “mínimo” e “máximo” está falando de temperatura ou de potência. Até mesmo quando estou em um momento de lazer no S4 Bar, o melhor (ou seja, pior) bar copo sujo da minha região, todo mundo está no Outback.

É difícil conviver com essa dura realidade. E mais inusitado que isso é que a internet nunca falha nessas horas para evitar que meu recalque apareça para eu sequer mover o dedo para deixar o like. É lógico que eu queria estar no lugar de todo mundo. É lógico que eu adoraria gastar dinheiro para sair de Goiânia e ir até o Rio de Janeiro e postar vídeo correndo na hora orla de Ipanema – não basta viajar para a cidade mais badalada do Brasil, é preciso ostentar também bons hábitos de vida, usufruir o melhor da vida em todos os aspectos e encarar a cidade com naturalidade (encanto demais é para marinheiros de primeira viagem). Deve ser muito bom, depois de uma temporada em Dublin, poder dizer com a maior naturalidade do mundo, sentado na mesa de bar qualquer, que nem tudo eram flores conforme o Snapchat mostrava, afinal, o aquecedor dor bar em que James Joyce frequentava não era tão potente assim. Melhor ainda poder “pray for Paris” no avatar do feice com a torre Eiffel ao fundo.

Não, eu não escrevo essas palavras com ódio. Há quem ouse dizer que isso é inveja, mas insisto em refutar esta tese, que não discordo no fato de fazer sentido. Confuso? O que quero dizer é que toda esta vulgaridade nas redes sociais segue a mesma lógica dos trotes universitários, estes sim já superados e desprezados por mim. Eu não concordo com este bullying que fazem comigo, me faz sofrer um pouquinho. Mas logicamente que, quando chegar a minha vez, vou precisar postar o lado bom da vida para ganhar mais likes (of course) e ainda farei questão de gravar vídeo no Central Park reclamando do serviço de charretes para mandar nos grupos de Whatsapp com a legenda “chora pobrada”. Assim como os (idiotas) trotes universitários, sofro agora para no futuro poder ter o mesmo regozijo.

E o Canal Off? Já chego lá.

Outro dia fui ao shopping sozinho, afinal, não havia arrumado companhia em tempo hábil para um mochilão em Machu Picchu. Entrei na Leitura e me dirigi à seção de livros em lançamento. Um deles era do Caio Castro. Não se trata de nenhum parente do Castro Alves caso alguém ache que estou sendo intelectual demais, é apenas o ator global mesmo (ou seja, estou sendo apenas pedante demais). O título: “É por aqui que vai pra lá – viagens por um ano sabático”. Ele conseguiu engarrafar em um livro o que vejo no feed do Facebook. Genial! A diferença é que o estilo de vida dele por si só já era digno de bullying para comigo e mesmo assim ele arranjou espaço na agenda para tirar um ano sabático só para me provocar. Até tu, Caius Castrus?

O que escrevi até agora foi só para preparar o terreno e te familiarizar com o meu sentimento diário. Envolto de tanto bombardeio por todos os lados, procurei no mesmo dia consolo no único divã possível, sendo assistido por um batalhão de psicanalistas devidamente armados de ampolas estupidamente geladas: a mesa de bar. Desta vez nem S4 Bar, muito menos Outback. O famoso Officina, o bar da família goianiense. Depois de alguns goles anestésicos, reparo a TV. Canal Off. Reparo que em todas os outros televisores e o telão. Só há audiência para somente um canal.  Não é possível! Me tirem daqui!

Como no Laranja Mecânica, eu era o Alex (o protagonista) sendo torturado sem poder piscar. No refúgio que escolhi para esquecer a vida medíocre que levo, mais uma afirmação do meu devido lugar no mundo.

O Canal Off é simplesmente maravilhoso. Várias cenas de surf, montanhas, natureza, mergulhos. Tudo isso registrado em full-ultra-HD-4k-high-tech-multimídia e protagonizado por homens e mulheres que saíram na mesma fornada que o Rodrigo Hilbert e a Fernanda Lima. Aquilo nem parece o planeta Terra. É o mundo perfeito. Quem me dera ser o carregador de equipamentos dessa galera.
Meu problema não é com quem viaja ou curte a vida melhor que eu. No Instagram, pelo menos eu escolho quem seguir e estar acompanhando e admirando/odiando de pertinho. Agora parece que em todo bar com televisão não existe mais futebol, UFC ou VH1. Estou exagerando? Consideravelmente. O que se passa lá é extraordinário, mas nem por isso quer dizer que eu queira ver. Inclusive deveria ter algum tipo de recomendação na tela para dizer que não aquilo não é recomendado para pessoas comuns. É como reunir todo o bullying velado do mundo em uma única forma de exibição. Quem me dera me desligar do mundo dentro do Canal Off e não na mesa de bar.

Garçom, por favor, desce mais uma e desliga o Canal Off.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Se bem que



Nossa! Hoje acordei cedo. Seis da manhã e tô sem sono. Até parece que não fui dormir depois da meia-noite ontem. Tô até me sentindo disposto. Incrível. Acho que dá até dar uma corridinha na esteira antes de ir pro trabalho. Se bem que já tem uns dois meses que não piso na academia. Nem sei por que fui fechar o pacote semestral. Mas é melhor me ater às coisas boas, não é mesmo? Sim senhor! É mais barato fechar o semestre que fechar o mês. Se bem que eu devia ter fechado o pacote anual. 

E como tá boa a minha fase no trabalho. Acho que rola pedir um aumento. Se bem que tem nem um ano que eu entrei. Mas foda-se, tô trabalho pra caralho. Como tava falando, fui dormir só depois da meia-noite. “Como eu tava falando”. Engraçado como eu falo comigo mesmo na terceira pessoa quando eu tô falando comigo mesmo. E olha que nem tô abrindo a boca pra falar comigo mesmo. Enfim, como eu tava falando... Porra, de novo!  Deve ser normal isso. Depois eu pergunto pra alguém se acontece isso com todo mundo. Continuando, como eu tava falando, fui dormir ontem tarde pra caceta. Se bem que ontem fui dormir tão tarde por causa do happy hour com o pessoal do escritório. 

E por causa do jogo do Fogão! Haha, já ia me esquecendo. Se bem que eu nem torço pro Botafogo. Essa é a parte mais engraçada. Mas futebol é futebol, não é mesmo? E o melhor foi ter falado pro Marcão que ia ficar até mais tarde no trabalho só pra não ter que ir no... É “ir no” ou “ir ao”? Acho que é “ir ao”, parece mais formal. Se bem que “ir no” parece mais natural. Ih! Olha eu aí de novo encrencando comigo mesmo. Se eu fosse eu, eu usaria “ir no” ou “ir ao”? Se bem que eu sou eu. Acho que escrevendo eu escreveria “ir ao”, mas falando eu falaria “ir no”. E pensando? Se bem que pensar é tipo falar. Onde é que eu tava mesmo? Ah, sim: o melhor foi ter falado pro Marcão que eu ia ficar até mais tarde no trabalho só pra não ter que “ir no” churrasco de aniversário da mulher dele. 

Chata pra caramba. Não sei como ele até hoje nunca percebeu isso. Sem bem que o Marcão tinha comprado um barril de vinte litros de chope e a mulher dele faz um bolo lá que é bom pra dedéu. Se bem que quem como bolo em churrasco? Churrasco é pra comer carne, não pra comer bolo. Bastava levar uma carne pra assar, tem um quilo de linguiça de frango mofando há moo tempão aqui no congelador. Se bem que no congelador não mofa, né? Nem deve estragar saporra. 

Ih, cacete, sete e trinta e três, vou me atrasar. Fiquei aqui falando (ou pensando) sozinho (ou comigo mesmo) e perdi a hora. Se bem que se eu não for à academia hoje eu consigo chegar de boa no trabalho. Pô, mas fica ruim, já são dois meses sem ir... Se bem que um diazinho a mais ou a menos não vai matar ninguém. É, vou direto pra trabalho, mais suave. Caramba, esqueci a minha carteira. Merda, esqueci a chave do carro. Caramba, onde é que tá a minha carteira? Acabei de voltar pra buscar essa merda. Droga, esqueci de abastecer ontem. Vou ter que parar num posto no caminho. Caralho, esqueci meu almoço em casa. Se bem que tem uma padaria na esquina que tem sanduíche de mortadela que é show de bola. 

Nesse posto aqui a gasolina tá barata. Acho que tá compensando. Se bem que é aquele posto que falaram que a gasolina era batizada. Mas aquele outro posto a gasolina anda cara pá porra. Se bem que gasolina rende mais do que álcool. Melhor ir lá, é mais garantido. Olha só, aqui tem promoção pra motorista de Uber. Acho que eu devia virar Uber pra tirar um extra e ter desconto na gasolina. Se bem que Uber pra tirar dinheiro tem que rodar pra cacete. Acho melhor eu pedir um aumento mesmo, tô ficando até tarde todos os dias. 

Oito e quarenta. Cheguei cedo até demais, dava pra ter feito pelo menos esteira. Se bem que é bom chegar cedo. Dizem que faz moral com o chefe. Se bem que aquele bunda mole só chega depois das dez. Isso quando ele vem. Vamos ver a pauta do dia: relatório. Engraçado como tudo aqui é relatório. Será que todo mundo trabalha fazendo relatório? Ah, caguei, dá pra fazer isso depois. Deixa eu ver esse vídeo novo do Porta dos Fundos. Aí, ó! Dois caras num escritório e um tem que fazer o relatório que tá atrasado. Todo mundo deve trabalhar com esse tal de relatório. Pra que horas é o relatório mesmo? Pras três. Tá tranquilo. Se bem que tem uma reunião às duas, teria que terminar antes do almoço. 

Dá tempo de abrir o Globoesporte.com. Quanto é que terminou o jogo do Botafogo mesmo? Nem lembro, nem prestei atenção. Quem liga pro Botafogo? Se bem que a novata do financeiro torce pro Botafogo. Como é que pode: uma mulher que finalmente gosta de futebol e vem logo me torcer pro Botafogo? Francamente. Se bem que ela é gata e gosta de futebol. Raridade. Não é de se jogar fora não. 

Caraca, já deu hora do almoço e não terminei o relatório. Melhor eu esticar um pouquinho aqui. Se bem que não consigo trabalhar com fome de jeito nenhum. Quem foi que pegou meu almoço? Ah, esqueci o almoço em casa. Vou ter que comer o sanduíche de mortadela mesmo. Se bem que tem essa saladinha que abriu aqui do lado que sempre tá cheio na hora do almoço. Tem até cartão fidelidade. Se bem que deve lotar só porque é novidade. Fidelidade, novidade. Até rimou. Eu devia começar escrever poesia. Humm... A novata botafoguense tá sentada ali. Não deve ser tão ruim assim, vou dar uma chance pra essa salada. Nem é tão ruim mesmo não, é até gostosa. A salada, não a botafoguense. Se bem que a botafoguense... Onde é que eu tava mesmo? Ah sim, a novata, quer dizer, a salada gostosa. Aposto que vou ficar com fome mais tarde. Se bem que não fiz esteira hoje. De qualquer maneira dá pra fazer depois do trabalho. Por via das dúvidas, melhor levar um pão de mel pra enganar o estômago. 

Que saco essa reunião. Eles acham que enganam alguém com essa história de corte de gastos. É tudo truque pra não ninguém pedir aumento de salário e deixarem o café aguado. Por exemplo, eu. Trabalho pra caramba, nem tenho tempo de “ir à” academia. Tá vendo? Sou tão profissional que no trabalho até meu pensamento é mais formal. Cacete, o relatório! O diretor vai encasquetar comigo. 

Ufa, que sorte essa reunião com o cliente ter aparecido, vai dar pra entregar até às seis. Diretor também é tudo vida boa. Cadeirona de couro, sala com ar condicionado só pra ele, roupinha Aramis, reunião. Acho que toda empresa deve ser assim. Pra pobrada: relatório. Pra diretoria: reunião. E quando chamam a gente pra reunião é só pra falar de corte de gasto. Por isso que o Brasil não vai pra frente. Cadê o povo na rua numa hora dessas? Fora Temer! 

Se bem que a outra que tava no lugar dele também não era lá essas coisas. Político é tudo igual. Igual futebol. Falando nisso, quanto que tá o jogo do Manchester? Qual Manchester ia jogar hoje mesmo? City ou United? Se bem que é tudo igual. Esses times europeus são tudo a mesma merda. Essa geração sete a um. Bom mesmo era na época do Vampeta. 

Aí, ó, trabalho tanto que nem abri o Face hoje, nem deu tempo. Será que a botafoguense tem Facebook? Se bem que quem não tem Facebook hoje em dia? Como assim ela não tem Facebook? Devo tá errado o nome dela. Deve ser com “h”. Deixa eu olhar no e-mail se é com ou sem "h". É, não tem mesmo. Deve ter Instagram. Instagram ela tem certeza. Isso é típico de quem acabou de terminar um namoro. Aí, ó. Tem Instagram. Quem é esse cara do lado dela? Deve ser o ex dela, só pode. Se bem que parece muito com ela, deve ser irmão. Com certeza é o irmão. Caralho, seis horas! Putaquipariu, o relatório! Lá vem o diretor. Agora que a vaca vai pro brejo. Disfarça! Disfarça!

- Terminou o relatório?

- Então, a reunião se estendeu um pouco, vou ter dar uma esticada pra terminar.

- Relaxa, a reunião de resultados é só amanhã. Vamo ali na dobradinha do bar da Devassa?

- Ih, rapaz, eu tinha que ir na academia... Se bem que eu posso ir amanhã de manhã.

Se bem que amanhã eu devia mesmo era pedir aumento.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Oi, sumida


Já faz anos que estou solteiro. E o que é vida de solteiro de fato? Puxar papo com a gatinha (ou contatinho, como dizem hoje em dia) no Whatsapp que você não fala faz tempo? Baladinha top? Cada fim de semana com uma(s) mulher(es) diferente(s)? Surubetis?! Neca de pitibiriba. 

Meus amigos, quem pensa isso é muito ingênuo, é o famoso nenas, juvenil, café com leite. Nem criança pensa nisso mais. Em tempos de smartphones e aplicativos, só se é solteiro oficialmente com o Tinder devidamente instalado no celular.

Para quem não sabe e não está querendo ir ao Google descobrir do que se trata essa geniosa engenhoca, Tinder é uma espécie de cardápio de pessoas em que você passa o dedinho para direita o que gosta e descarta com dedinho para esquerda quem não é do seu agrado. Isso mesmo! A diferença é que você também está no menu de outra pessoa (no meu caso, estou mais para um prato do dia do R.U. do que uma carta de vinhos) e é de graça comer, caso esteja de comum acordo para os escolhidos.
Antes, é claro, é preciso montar o seu perfil, que é como as pessoas vão te ver no cardápio.

Vamos para escolha das fotos: esconder a barriga saliente, isso! Atenção com a foto de óculos pra dar tom de intelectualidade, beleza. Mais atenção ainda com a barba hipster da moda, a mulherada gosta. Estátua da Liberdade ao fundo para mostrar que sou viajadão. Uma de camiseta lisa, uma de xadrez, uma caribenha para deixar descolado... Opa, essa não, tá mostrando que tá ficando careca. Essa aqui de 2011 passa, né? Feshow! Tudo pronto para ingressar nesse universo de pura azaração.

E por falar em azar...

A cada dedinho pra esquerda, mais acho que baixei o aplicativo errado. Melhor conferir se não baixei o “Travestinder”. Se bem que sempre tive curiosidade, é a minha grande chance. Bom, aparentemente é o aplicativo certo. Olha só! Essas moças são do meu agrado. Por que ninguém faz combinação comigo? Acho que o meu app estava com defeito, só pode. Onde manda e-mail para reclamar?

Quatro horas e nada de match.

Mas tá legal continuar vendo as futuras médicas, futuras advogadas, futuras veterinárias e futuras engenheiras – incrível como na descrição nunca é “quero ser isso mas ainda não sou” e sim “futuramente serei se Deus quiser”.

Eita, essa aqui é lá da faculdade. Essa aqui é do trabalho. Caramba, pensei que minha chefe era casada. Essa aqui estudou comigo no jardim, já dei até frentinha na fila do lanche. Essa outra aqui é amiga da minha ex. O que minha ex tá fazendo aqui?! Será que dou like? Por que essa menina tá fazendo biquinho? Essa outra também. Essa outra também. O que essa aqui está procurando no chão? Por que essa outra está fantasiada de cachorro? E por que caralhos essa tá beijando um cara na foto de perfil? E essas frases motivacionais onde deveria ser o “quem sou eu”?

Por falar nisso, um parêntese para essas ótimas descrições de perfil:

"Oii quero amizades sinceras e coloridas. Te desafio a começar a conversa com algo mais interessante do que oi".

Será que serve um olá?

"Não quero alguém que me complete, pois já sou completa. Quero alguém que me transborde."

Olá, me chama de pia entupida e jogue suas vasilhas do almoço aqui em cima, sua linda.

"Estou a procura de novas amizades. Quem sabe, um relacionamento. Não estou a fim de sexo casual. Nada contra, mas não faz meu tipo."

Nem o meu, Jurema, nem o meu.

"Bacana. Nada de nudes kkk. Nem segundas intenções pfv quero conhecer alguém pra conversar."

Tenho um ótimo terapeuta que é muito bom ouvinte e tem ótimo papo. Será que recomendo?

“Não sei o que estou fazendo aqui”.

E eu que nem sei o que faço nesse planeta? Aliás, duvido muito da minha existência. Na verdade eu sei o que tô fazendo aqui e você também. Acho que vou dar like pela profunda reflexão que me causou.

Já tô aqui tem uma semana e eu só quero ver uma gatinha indie/hippie/hipster/fora Temer com a descrição com um “bora tomar uma”.

Um superlike! O que é superlike? Como que faz agora? Não sei, mas acho que fiz cagada porque a menina sumiu. Droga! Sou muito panaca mesmo.

Opa! Deu match. O que escrevo agora? Já sei:

- Bora tomar uma?

Tá parecendo que não.

Olha só! Outro match! Acho que falta um pouco de ousadia:

- Que bombonzinho, hein, pai...

Esperando resposta. Será que é normal demorarem três dias para responderem?

Acho melhor voltar pro Whatsapp.

- Oi, sumida.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Chuluva

Duas situações esta semana me levaram a refletir o que é o crescer para uma criança.

Domingo dei aquela sorte de estar zapeando a TV e encontrar um filme começando naquele instante. Era a animação da Pixar “Divertida Mente”. O filme consiste no que se passa nos bastidores na cabeça de uma menina, Riley, em suas primeiras experiências com o mundo. O que vou relatar a seguir mais tem a ver com o enredo e uma interpretação de uma criança grande que sou a respeito da animação e do que um spoiler.

Sentimentos como alegria, tristeza, medo, raiva e nojo são muito claros e personificados na cabeça de Riley, assim como as referências que circulam o seu mundo e a sua rotina, se tornando ilhas. Na medida em que em que ela cresce, pensamentos e lembranças são armazenados. Quando as prateleiras de pensamentos estão cheias e caem em desuso, elas são esvaziadas para o lixão da mente. Tudo muda, porém, quando seus pais decidem se mudar de Minnesota para São Francisco.

Coincidentemente, esta mudança se dá quando Riley está em sua pré-adolescência, prestes a entrar em uma fase de mudanças, incertezas e transformações: aos poucos, a infância inevitavelmente será deixada de lado. Velhas brincadeiras são esquecidas, a formação moral é questionada e comportamentos sapecas típicos de crianças são esquecidos. As ilhas começam a se desmoronar.

Da mesma forma, sentimentos antes tão bem definidos ganham nova roupagem: alegria e tristeza nunca foram tão confundíveis, a raiva ganha mais poder de decisão do que o medo e o nojo começa a moldar certas relações sociais. Algumas habilidades perdem força e outras habilidades surgem para atender a demanda de novas necessidades sociais. A mente, da mesma forma, ganha novo painel de controle, uma versão expandida para novos conteúdos antes jamais cogitados. Novas ilhas surgem como referência de vida.

Riley estava a um passo de apertar o botão da puberdade.


Dias antes de assistir esse filme, na semana passada, uma amiga me perguntou se quando criança eu brincava de ser publicitário. Parei para pensar nas minhas brincadeiras. Em um primeiro momento, lembro de brincar solitariamente com meus carrinhos e bonecos no chão da sala da minha antiga casa no Setor Pedro Ludovico.

Por um estalo, busquei nas prateleiras empoeiradas das minhas lembranças uma quase esquecida, dá época em que eu passava as férias em Natal na casa dos meus avós. Eu e minha prima Fernanda costumávamos ir até o meu antigo quarto, que virou uma espécie de quarto de hóspedes e escritório do meu avô (o homem mais velho que eu conhecia na época) para buscar livros e revistas para brincar de banca de jornal. Nós mesmos confeccionávamos as cédulas de dinheiro, com papel sulfite, giz de cera e tesoura. Por vezes, eu era o dono da banca e ela era a cliente. Quando enjoávamos das nossas funções, mudávamos de posto.

Quando consegui resgatar essa lembrança, me peguei sorrindo e bateu uma saudade inesperada dessas brincadeiras. E me perguntei também quando foi que parei com elas, quando deixei de brincar com os bonecos que sempre dormiam junto comigo na cama, quando deixei a futura e promissora carreira de melhor vendedor de revistas do Bairro do Bom Pastor para trás. Sinceramente não me recordo e não encontro a data exata em nenhuma das prateleiras da minha mente.

Mas uma outra brincadeira, talvez a mais incrível de todas, também aconteceu nas férias que passava em Natal.

Minha família é uma tradicional família brasileira: pai com filhos fora do casamento original, irmãos com grande diferença de idade, mudanças de cidade e distância geográfica. Nestas aventuras, fui tio muito cedo. Quando eu tinha três anos, minha irmã Alessandra teve seu filho, Juninho. Foi difícil, mas creio que consegui cumprir árdua missão de ser tio tão precocemente. Imagina, uma criança de seis anos ter que explicar para uma de três o jeito certo de brincar de carrinhos? Confesso que em alguns momentos pensei em desistir da minha função do dever.

Com o tempo, infelizmente, acabamos perdendo este contato e esta interação.

Anos mais tarde, foi a vez da minha irmã Miriam ser mãe. Quando ela engravidou, eu tinha nove anos. Dessa vez pude acompanhar, mesmo que na distância, o desenvolvimento da Laiz, desde as ultrassonografias, até seu nascimento e parte do seu crescimento.

Tive o primeiro contato com a Lolly quando ela já tinha por volta de três anos eu dos treze. Pensei comigo mesmo “sobrinho de três anos eu já tiro de letra”. Pobre criatura ingênua que eu era. Ela era uma criatura muito mais esperta e astuciosa. As ilhas dela estavam melhores estruturadas do que as minhas. Logo vamos entender o porquê.

Eu, na prática, era totalmente sem jeito. Ela era um projeto de menina paulistana mimada, com um sotaque já forte (imagine este “forte” com aquele “r” paulistano da MTV). Quando se sentia desconfortável ou algo não vinha como ela queria, a Tristeza entrava em ação, tomava o painel de controle e ela chorava. Ao mesmo tempo, ela era extremamente divertida e lúdica. Como não se encantar pela pequena Laiz?

Íamos muito à praia. Ela usava pequenas chinelas Havaianas que tinha desenhos de uvas. Em uma tentativa de fazer amizade, a ajudei a calçar os chinelos, cheirei seus pequenos pés e fiz careta. Ela me perguntou “o que foi?”. Eu disse “chuluva!”. Ela estranhou: “chuluva?”. Ri por dentro e disse. “É, chulé de uva”. Ela riu por fora. Na mosca: eu começava a ganhar território.

Ao conseguir ganhar pontos, ganhava também a responsabilidade de ficar mais tempo com a pequena e dar mais descanso aos pais e avós. Uma dessas tarefas foi tentar fazer com que ela cochilasse após o almoço. Sugeri o desafio do jogo da imitação. O jogo consistia em, cada um em sua vez, propor alguma imitação. De gatinho a leão, de cachorro a dinossauro, quem imitasse melhor, ganharia o ponto. Em uma determinada rodada, malandramente propus o desafio de quem imitava melhor alguém dormindo. Ela deitou na cama, eu no chão e começamos o fingimento. Depois de cinco minutos, prevendo que meu plano infalível tinha funcionado, levantei e fui orgulho dizer para Mirinha que eu consegui colocar a Laiz para dormir. Nosso triunfo não durou trinta segundos quando ela apareceu na porta prontamente acordada. Falhei.

Outro dia, indo à praia, sentei no banco de traz do carro ao lado da cadeirinha de criança em que Laiz estava e comecei a brincar com ela como se ela fosse um piano e disse “nossa, esse piano está enguiçado, não faz barulho”. Rapidamente ela protestou “eu não sou um piano!”. Eu disse “se não é um piano é um teclado”. Mais protestos “eu não sou um teclado!!”. Parei. A encarei e a perguntei “ué, então o que você é?”. A resposta veio feliz da vida “sou uma menina!”. Nessa saímos empatados.
 
Na praia, a marra e a manha da pequena Lolly continuavam. Fiquei brincando com ela, fazendo castelos de areia, enquanto minha irmã e meu cunhado saíram para caminhar um pouco. Ao perceber que os pais não estavam por perto, ela entrou em desespero e a Tristeza mais uma vez entrou em ação. Ela chorava e dizia que queria os pais. Impotente, tentei a acalmar propondo para irmos procurá-los. Ela topou e segurou a minha mão.

Naquele instante ocorreu incrível dentro de mim, vendo o quanto uma criaturinha daquele tamanho poderia cativar.

Poucos metros de caminhada depois, a danada reclamou que a areia estava quente e que estava cansada. A coloquei no colo e a carreguei mais como um saco de batatas do que como a menina-piano que ela era. Ponto para Laiz.

Depois daquele verão, algumas semanas depois, completei catorze anos e vivi, talvez, o primeiro ano de transformação do que sou hoje. Provavelmente foi nessa mesma época em que parei de brincar com carrinhos e bonecos. Provavelmente, depois dessas férias, nunca mais brinquei de banca de jornal com a minha prima, se é que nessas férias ainda brincávamos disso.

Demorei alguns anos para reencontrar a Laiz. Ela já estava grande. Não era mais uma menina mimada, mas continuava extremamente inteligente. Talvez o nascimento do irmão mais novo a fez mais ponderada. Dessa nova figurinha ainda irei de falar um dia.

No nosso último encontro trocamos referências sobre culinária, viagens e livros. Em comum temos um apreço pelos livros da série “Desventuras em Série” e pela “Turma da Mônica”. Ela me ensinou que para ser um “boy magia” e impressionar as garotas, basta eu ter um talento extraordinário como tocar em uma banda, ser muito bonito como algum dos youtubers que ela gosta ou ser muito legal. 

Ela diz que sou muito legal. Eu a apresentei bandas que gosto, como “O Terno”. A levei para dar umas voltas de metrô em São Paulo, chegando à Paulista no domingo para ver hipnose na rua, na Liberdade em um dia de muito movimento e eventos culturais e até mesmo em um show de rock pesado, esse por puro erro de percurso do tio lesado.

Não sei por quanto tempo essa relação continuará assim. Ainda tenho delírios de ser aquele tiozão jovem que poderá leva-la e busca-la de festas e shows. De poder, talvez, quem sabe, aconselhar de dores de alguns amores derrapantes. De depois poder ajudar em algum papo intelectual pretensioso sobre faculdade, carreira, medos e escolhas. Inclusive, espero que ela passe por alguns perrengues para que ela crie uma casca e seja forte para suportar esse mundo, infelizmente, muito mais desastroso e danoso do que seu talento para destrezas.

Chego à conclusão que crescer é saber ver uma criança mais criança que a gente crescendo e ter este sentimento nostálgico abobalhado que estou tendo agora. É reconhecer que uma criança mais criança que a gente não é mais criança.

Malditos sejam os filmes da Pixar.

A Chuluva Lolly faz catorze anos hoje. Em breve, o painel de controle dela será substituído por outro muito mais sólido e crítico em sua cabeça. Outras ilhas serão construídas. Dores vão surgir e a Tristeza parecerá. E que seja assim, faz parte do amadurecimento. A tristeza é inevitável quando se tem que crescer. Em breve, o mais provável, é que eu seja um tio distante e careta que escreve algumas baboseiras de vez em quando. Se for isso ou não isso, ela terá razão, afinal, sabemos que ela é muito mais esperta que eu, vide placar acima. Não importa. Ser tio e saber que ela também cresceu é bom pra dedéu.